«Belcanto» dos preços baixos (artigo em português)

Ana Carla Gomes Fedtke e Eberhard Fedtke sobre a brincadeira com os consumidores

> Portugal é um país com muitos contrastes. Quem visita pela primeira vez este canto da Europa do Sul, fica admirado com os muitos hábitos fora da «normalidade europeia».
Não é só o tempo agradável, a pacifica área social, o ar puro, a gente amigável e acolhedora, mas também a capacidade duma flexibilidade e improvisação em todos sectores do dia a dia. Os portugueses querem improvisar e chamar atenção com ideias «fora da série«.
Fazemos uma observação especial no nosso país: Parece que vivemos continuamente num puro paraíso de pequenos preços. Quando entramos num supermercado, uma onda de ofertas especiais dá-nos as boas vindas em todo lado. É um espetáculo «omni-influenciável« de excessiva e agressiva publicidade perfeita. Uma opulenta redução aqui, uma impressionante ação do mês acolá, da semana ou do dia. Existe uma panóplia de preços tão bem instituída que leva o consumidor de forma arrebatadora. Toda a sala é uma vibração contagiosa de oportunidades exclusivas para «poupar». O publico é altamente stressado: pais esgotados não podem resistir aos caprichos irredutíveis dos filhos, adultos perdem o controlo mental sobre a lista de compras na mão, pessoas de alta formação esquecem perante furacões de ofertas únicas e radicais que, segundo as análises científicas aprofundadas, só máximo de 35% dos produtos expostos no supermercado no setor da alimentação são suficientes para se ter uma vida completamente equilibrada, agradável e saudável, aliás chegam 10% para bem viver, diríamos até: sobreviver. Basta recordarmos por poucos minutos as modestas listas de compras dos nossos antepassados não muito longínquos, não existindo ainda nem supermercados, nem minimercados, só pequenas lojas com mercadorias de produtos de sobrevivência. Se virmos as fotografias a preto e branco das pessoas desta época, notamos que eram elegantes e cheias de saúde. E hoje em dia? Receitas, produtos e consultas para emagrecer no ano 1900 não eram necessários.
A análise contemporânea espelha uma pura imoralidade perante a fome mundial em crescendo e que nos choca cada vez mais. Uma informação global e total via internet choca-nos todos. O mundo inteiro vive a crédito da produção de recursos a partir de meados do ano. Consumir é a maior doença do mundo moderno. Quem tem vergonha? Muito poucos.
Fazemos um exame de consciência e falamos a verdade: acham que são necessárias dez espécies de leite diferentes, vinte modelos de iogurtes, trinta marcas de pão, quarenta variações de queijo, cinquenta seleções de vinho, cem marcas de doces, chocolates ou cereais infantis?
Façamos uma introspeção mental, pensamos na saúde e nas calorias. A grande percentagem acima de 35% respetivamente; 10% representa um puro luxo para a nossa mesa, é muita decoração, e feitas as contas não é mais do que um grave perigo para o fígado, para o coração para o aumento do peso, finalmente uma boa parte, a boa parte talvez acabe no lixo. A secção infantil exerce uma ­esmagadora e potente diretriz nos supermercados, confrontando uma fraqueza significativa de pais que cedem com ­facilidade aos devaneios e birras das crianças. 60% ou mais das crianças portuguesas têm sobrepeso, um escândalo cultural e medicinal.
De propósito, com estratégias profundamente pensadas e minuciosamente ­articuladas, os grandes supermercados levam a cabo «um ambiente agradável de compras», conferindo «um determinado sentimento de bem-estar» de preferência dentro das cores alegres que oferecem músicas lisonjeiras em torno. Este ambiente «a alegria de poupar» é por isso propício ao estímulo de compras ­desenfreadas, tal como uma droga irresistível, despoletando assim o conflito entre tentação e racionalismo, entre força e fraqueza pessoal, entre lógica humana e um absurdo cenário de consumo de imoralidade. Perante este múltiplo stress, acompanha-se o amado cliente a partir da entrada até à caixa, onde filas longas provam significativamente, qual filosofia domina, apresentando-se os carrinhos ou os cestos das compras não raras vezes mega cheios com produtos de luxo.
Placas ilustres e penetrantes, uma invasão para os nossos olhos e ouvidos em forma de propaganda insistente e comovente, quer através da rádio e da televisão, de folhetos coloridos ou de enormes expositores de propaganda da rua contribuem para a sensação de tentar um produto novo ou ainda desconhecido, logo a partir de hoje, experimentar uma receita nova. O sector «PPD − Promoção, Poupar, Desconto» é uma nova industria ilustre e moderna, contaminando as fantasias dos consumidores. «Mais apetite, menos calorias», «A sua saúde é a nossa alegria«, «Hoje não se arrependa», «Novas formas de poupar», «Sempre ao seu lado», «Tudo a preços históricos», «Descobrir o melhor», «Sorriso aos preços cada dia mais baixos», «Centenas de produtos em promoção a não perder», são apenas uma pequena seleção de hipócritas promessas. «Poupar», «Aproveitar», «Comer ­confortavelmente demais», «Beber sem arrependimento» etc. são os slogans ­recorrentes da indústria alimentícia, ­ignorando também as dissonâncias ­financeiras de muita gente «gulosa». Uma suave realidade é que no fim o cliente usufrui de cupões de desconto para a ­gasolina que uma parte destes supermercados incorpora. Mais compras, mais combustível barato disponível, mais quilómetros, mais poluição para os pulmões. É o complemento perfeito: adição dos elementos destrutivos na nossa sociedade moderna, tão animada, constantemente debaixo do estigma da poupança.
Voltamos seriamente às regras económicas: pode um supermercado com um lucro global de 2 até 3% das vendas sobreviver com tais quantias de reduções permanentes de 20, 30, 40, 50 ou até 70%? Não pode. Mas o cliente reage de forma crédula, fraca ou pelo menos superficial e ignorante. Quem compara os preços das ofertas de vários supermercados, para encontrar o preço ideal de um determinado produto, por exemplo da manteiga, da carne e do peixe, dos abacates, dos limões, da batata doce e de todos os produtos favoritos na sua panela? Quem lê os jornais diários ou os labirínticos ­folhetos dos supermercados? Conforme sondagens sérias talvez até 5% dos adultos, entre eles uma boa parte dos reformados que têm tempo para cuidar da alimentação da família ou passam nos supermercados para divertir-se num ambiente agradavelmente pitoresco e que serve para se aquecer no inverno, tendo até cada supermercado de categoria um pequeno bar. A avó e o avô são um par bem informado no sector de supermercados, não os pais que depois do trabalho do dia se apressam para fazer as compras necessárias.
Aliás, a grande maioria dos consumidores compra sempre nas mesmas lojas, tem afinidades irresistíveis com os seus «supermercados de sempre». Alguns deles possuem já um «fan club» para todos: miúdos e graúdos. Ligações quase familiares.
Mesmo a brilhante promessa de equilibrar um preço mais baixo de um ­concorrente, é uma finta inteligente, mas vazia. Precisa-se de um controlo global e eficaz de todo o mercado em causa, para encontrar finalmente os preços certos, já para não mencionar as diferentes qualidades e volumes dos pacotes. O preço do quilo é um dos fatores essenciais para fazer uma comparação verdadeira. Nem pensar numa tal isenta comparação! Falta para a sociedade moderna «de pressa» passar o seu precioso tempo dentro de um supermercado, a fim de comparar preços. Pouco idílico num ambiente ­aldrabão de preços coloridos e encantadores.
No entanto se se fizesse este prazer de um controlo completo, o resultado surpreendente seria muitas vezes o de que um determinado preço baixo ou reduzido − incluído os enormes custos de ­publicidade − numa loja, é um preço normal noutra. O intuito é fazer uma análise total neste sentido e estudar diligentemente todas as secções dos produtos ­oferecidos, tal como faz o vendedor permanentemente, optando ele por colocar preços reduzidos, dependendo estrategicamente dos produtos e das respetivas ofertas na concorrência. Dá-se assim como provado que este sistema de reduções é uma simples tentativa de argumentar as vendas e ganhar mais clientes, pelo menos alguns do famoso grupo dos 5% que compram com os olhos bem abertos. O principal objetivo é sempre auto-egoísta, só em segundo lugar surge indiretamente a vantagem para o consumidor.
Conclusão: estas reduções de preços, em conjunto com uma esmagadora publicidade, servem em primeiro lugar para o bem-estar dos supermercados hoje em dia. A razão é que relativamente ao número populacional, para fornecer a alimentação, as ofertas de mercado −pequenas e grandes, nacionais e inter­nacionais − são em geral exageradas. ­Metade das lojas e supermercados seria suficiente. A população não cresceu em extensão como os metros quadrados dos mercados da alimentação. Os grandes impérios de supermercados que são cada vez mais os grandes responsáveis pela crise do pequeno comércio, que desaparece mais e mais, apresentam uma competição diária e desenfreada de redução de preços, para cobrir os seus próprios custos.
Viver num paraíso de preços verdadeiramente reduzidos é um sonho irreal e mítico. Baixas de preços são à partida preços certos. O preço mais alto, bem ­visivelmente cancelado no indicador para este efeito, é uma mentira tática, um estímulo dia-a-dia variável para servir os interesses de quem vende, uma filosofia individualista para multiplicar os seus lucros.
Brincadeira simples: truques ocultos para cilada dos consumidores de boa fé,
Portugal nada um pais de cucanha.

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